O olhar feminista na Bienal Anozero, em Coimbra

Filipa Oliveira e Elfi Turpin assumem a curadoria da Bienal Anozero de Arte Contemporânea, que regressa este ano a Coimbra para a sua quarta edição. A exposição, dividida, pela primeira vez, em duas partes, trabalha a temática da noite, “um lugar aberto a outras possibilidades de visão”, explica o comunicado de imprensa.

A segunda metade da programação, inaugurada no início do mês da liberdade, o mês de abril, marca o ideal de pensar o mundo para além do patriarcado, numa cidade “profundamente branca e de um saber envelhecido”, diz Filipa Oliveira. Até junho, o evento ocupa pontos “tradicionalistas” da cidade, como apontado pela curadora, num trajeto que inicia no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova.

Com o feminismo em foco, o intuito não é colocar em plano de superioridade o feminino, mas sim mostrar como há capacidade, também na mulher, para desempenhar certos cargos. Esta é a primeira edição da Bienal Anozero com mulheres na posição de curadoras. 2022 sinaliza também o ano em que há maior representatividade feminina. Entre o corpo de artistas, elas representam 65% dos 45 nomes que expõem.

Artista convidada, Mané Pacheco enxerga a presença feminina no meio artístico como “uma preocupação relativamente recente, que surge por pressão dos artistas, da política e da população no geral”. A artista, que tem obras interdisciplinares e trabalha desde o desenho até a performance, não sentiu a necessidade de construir um projeto estritamente ligado ao ativismo para a exposição. Uma de suas peças, que tem a aranha como representação, deixa implícita, no entanto, a ideia de que “cada vez é mais importante não existir uma distinção objetiva dos géneros”. Para a criadora, a figura está relacionada com a mulher em diferentes formas: “quis fazer um objeto peludo e macio, mas ao mesmo tempo assustador e intimidante, sendo essa um pouco a conotação das mulheres na sociedade – são as bruxas. Acaba por existir, também, um lado mítico e poderoso na imagem da fêmea”, confessa Mané.

A obra é feita a partir de ferragens que são maioritariamente usadas em trabalhos ditos masculinos pela sociedade. Instalações de eletricidade e materiais para as canalizações, por exemplo, foram transformados em outras significações, processo que implica um cuidado manuseamento de ferramentas.

Objetivo comum em todas as edições, a desconstrução da cidade é um trabalho coletivo entre os diferentes artistas e o público. Convidados a discutir a noite como espaço de resistência na primeira parte da exposição, entre novembro e janeiro, os visitantes da Bienal permitiram alargar os horizontes do conhecimento académico característico da cidade de Coimbra.

A Bienal Anozero segue com a Meia-Noite até ao dia 26 de junho nos espaços do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, CAPC Círculo Sereia e Círculo Sede, na Estufa Fria do Jardim Botânico, no Teatro da Cerca de São Bernardo e pela Rua da Estrela. Mais informações sobre a programação no site oficial: https://21-22.anozero-bienaldecoimbra.pt/.

Texto: Ana Carolina Patrão

Fotografia: Catarina Ferreira

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