Mulheres na indústria dos Videojogos: “Eu não sou uma jogadora, sou um jogador”

Apresentadora na RTP Arena, canal público português dedicado aos videojogos, Sara Lima cita uma frase de uma jogadora que participou no Arena Show: “eu não sou uma jogadora, eu sou um jogador”. A afirmação brinca com o termo player, que em inglês não atribui género. Ser um player, não importar ser homem ou mulher, esse é o resultado que se espera com uma representação feminina mais forte e digna. 

Tanto no competitivo quanto no entretenimento, os jogadores homens têm mais visibilidade e engajamento. A jornalista está de acordo com ‘ymna’ quando ela diz que a aposta mais séria passa por equipas mistas, permitindo que talentos femininos entrem em ligas de destaque. Sara Lima vê que as raparigas não têm as mesmas oportunidades e enxerga nos line-ups mistos uma solução para cimentar a presença de mulheres.

A Twitch – gigante de streaming onde dominam os videojogos – tem apostado em dar visibilidade às mulheres com a criação da Twitch Women’s Alliance. Ana Sena foi recentemente destacada pela lista “30 under 30” da Forbes, na categoria videojogos. Com experiência no ramo do entretenimento, ocupa o cargo de Strategic Partner Manager na empresa, realizando a captação e a gestão de novos talentos para a plataforma. Ana também faz parte da equipa do programa de apoio às mulheres e fala sobre o tipo de trabalho que desenvolvem: “Normalmente são mulheres que fazem muitas streams regularmente. Sendo Twitch Partners [maior etapa de streaming da plataforma], podem-se candidatar a esta iniciativa e usufruir de oportunidades que nós vamos ter – de promoção de marketing nas nossas redes sociais ou campanhas. Tivemos, para celebrar o mês da mulher, uma campanha publicitária onde incluímos várias streamers membros da Twitch Women’s Alliance. Também temos, às vezes, marcas que querem colaborar com streamers mulheres, então nós fazemos o exercício de as conectar e fazer essa ponte de ligação”.

Diversificar perspetivas

No desenvolvimento de videojogos, existirem mulheres em cargos revela-se importante não só em termos de representação quantitativa, como também qualitativa, no combate aos abusos e estereótipos.

“Na minha realidade profissional sempre fui tratada com respeito e motivada para fazer a minha voz se ouvir, mas eu já ouvi imensas histórias de horror”, conta Eva Vital, game designer na Fortis Games, que refere também a falta de mulheres nas decisões criativas. Marcada por títulos como NeverWinter Nights, Dragon Age e Mass Effect, Eva é apaixonada por RolePlaying Games – os RPGs, nos quais os jogadores assumem um personagem dentro de uma narrativa – e tem o desejo de contar histórias através de jogos. 

O não conhecimento dos possíveis cargos de desenvolvimento na indústria pode influenciar negativamente o número de mulheres que optam por seguir a área, resultando numa falta de perspetivas nos produtos finais. Para Eva, é preciso uma pessoa com uma dada vivência para dar credibilidade às histórias, do contrário, as personagens ficam convencionais e estereotipadas.

Uma equipa diversificada permite explorar outras personagens e narrativas. Por essa razão, juntamente com outras duas desenvolvedoras – Ana Catarina Lopes, da Not A Game Studio; e Bruna Gonçalves, da Lockwood Publishing –, Eva criou a Women of The Portuguese Games Industry. A iniciativa procura mostrar “a diversidade de cargos que existem na indústria de jogos, principalmente em Portugal, onde os videojogos não são considerados nem tecnologia, nem artes. Não existem apoios e não existe o conhecimento [do público] sobre exatamente como é que um videojogo é criado”.

Além disso, o programa é uma tentativa de impedir o burnout de mulheres na indústria. Para combater situações de assédio, aposta na criação de programas de mentoria, no aumento de representatividade e numa comunidade de apoio para casos que surgem em empresas. “Começamos a crescer nas redes sociais e agora o trabalho que temos pela frente é fazer crescer a comunidade e realizar os primeiros eventos em escolas e universidades para dar a conhecer mais mulheres na indústria em Portugal”, afirma.

Texto: Ana Gil

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