A borda lê: “O tempo das criadas”, de Inês Brasão

Nota: 5/5

“O tempo das criadas” recupera memórias de dominação e de resistência a partir das histórias de mulheres que trabalharam como criadas em Portugal, entre os anos 40 e 70. No trabalho pioneiro de Inês Brasão acerca da condição servil são abordados temas como o estatuto do trabalho doméstico, o êxodo feminino, a construção social da servilidade, além de aspetos acerca da desobediência.

Publicado em 2012 e ambientado numa Lisboa mais fechada e tradicional, o livro fala-nos de um período de mudança no papel da mulher, que cuidava da casa e da sua família e sai para cuidar da casa de outra família. Acontecia a muitas mulheres que ficavam viúvas, por exemplo, e já não tinham os maridos para ajudar no sustento das contas de casa. 

Baseada em entrevistas, a publicação reúne 18 biografias de antigas “criadas” – uma delas tem mesmo direito a um capítulo e é apresentada sob o pseudónimo de Maria Mendes. Inês Brasão propõe “confrontar” as protagonistas com a construção social que era então feita das criadas, as quais tinham “pretensões de imitação de classe de quem serviam, impropriedade linguística, carentes de higiene moral e física, hábitos pouco católicos, incapacidade de cuidar dos outros e falta de produtividade”.

Com a obra, a escritora e investigadora tentou perceber vários ângulos da estrutura familiar, “a célula básica da sociedade”, e como esta estava organizada. Outro ponto de análise foi a transformação da sociedade como o êxodo feminino da altura. Entre os anos 50 e 70, as mulheres (raparigas com os seus 12/14 anos) saíram das suas casas, do interior do país, para irem trabalhar para a cidade. Não viam o que se passava no mundo além da esfera privada porque só sabiam o que estava dentro da casa dos patrões. 

A leitura do livro é acessível e desperta o interesse por mencionar factos, alguns impensáveis, que se passaram no tempo das nossas avós, mas que nunca deixaram de ser atuais. Sempre existiu o trabalho doméstico e sempre existiram empregadas domésticas nas casas do povo português, mas ler algo tão real e tão próximo de nós dá-nos uma perspetiva diferente daquilo que pensávamos. A mulher, no seio da família desse tempo, era vista como um simples objeto que servia para tratar da casa e da família, mas que se viu mais independente quando começou a trabalhar. É isso que a obra nos conta, num estudo intenso de Inês Brasão: uma mudança no paradigma da sociedade em que viviam as mulheres. Li, adorei e folheei várias páginas mais de uma vez. Sublinhei, escrevi notas e agora é a vossa vez de conhecer o trabalho que este ano completa 10 anos de publicação. 

A autora é Professora de Sociologia no Instituto Politécnico de Leiria e investigadora integrada no Instituto de História Contemporânea (NOVA FCSH). Em 2011, venceu o prémio Maria Lamas de estudos sobre a Mulher, Género e Igualdade, com o seu trabalho investigativo sobre a condição servil em Portugal, o qual deu origem ao livro “O tempo das criadas”. 

Texto e fotografia: Isabel Moita

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: